No post “você sabe dizer não?” falei um pouco sobre assertividade, um tipo de comportamento que torna a pessoa capaz de agir em benefício de seus próprios interesses, expressando seus sentimentos de forma clara, sincera, sem constrangimentos e sem ferir outras pessoas. Hoje vou falar sobre sentimento de culpa, um oposto do comportamento assertivo, que se instala quando agimos de forma inadequada e acabamos guardando nossos desejos, cedemos às vontades alheias e essas ações nos trazem prejuízos e arrependimentos.
Quando fazemos algo que julgamos inadequado ou que fere convenções morais ou princípios éticos, sejam eles criados por nós mesmos ou pela sociedade, ficamos expostos a possibilidade de sermos punidos. Por exemplo, quando uma jovem afirma: “Não vejo graça nenhuma nesta festa, pois sei que meu pai está aborrecido comigo por eu ter vindo”, ela sente-se culpada, pois sabe que depois vai ter que enfrentar o aborrecimento do pai, as broncas ou até mesmo o corte da mesada. Ou ainda, quando um vestibulando diz: “Não consigo me divertir durante os feriados, pois fico o tempo todo pensando que deveria estar estudando”. Neste caso o sentimento de culpa surge em função da possibilidade dele ser punido com a reprovação no vestibular se seus concorrentes se saírem melhor na prova.
A pessoa que se sente culpada experimenta várias sensações desagradáveis como: raiva de si mesma, preocupação excessiva com a opinião dos outros, mal estar, dificuldade de assumir responsabilidade pelos próprios atos, sente-se rejeitada ou vítima da situação, dificuldade de expressar os reais sentimentos, não consegue dizer “não”, tem baixa autoestima, além de procurar agradar fazendo algo pelos outros e raramente para si mesma. A grande questão é que além de enfrentar todos esses comportamentos que estão atrelados ao sentimento de culpa, a pessoa acha que o erro está nela, o que pode agravar ainda mais a situação. Como procurei mostrar nos exemplos acima a culpa se instala em função de haver um julgamento da ação e possivelmente uma punição caso ela não seja aprovada. Ou seja, o sentimento de culpa não surge pelo fato de ter ido à festa ou está curtindo o feriado, mas sim pelo julgamento e desvio do enfoque da ação, que normalmente considera a pessoa culpada.
Para ficar mais claro vamos pensar o seguinte: o filho faz algo que a mãe não aprova e ela tenta punir verbalmente o filho dizendo: “Estou triste com o que você fez”; “Sua atitude me entristece”; “Não esperava isso de você”… Observe que as verbalizações da mãe tornam o filho responsável pelos seus atos: “por sua culpa, não dormi”; “por sua causa, seu pai brigou comigo”; “você é culpado da minha tristeza”; “você quer matar sua mãe?”; “não aguento mais você”… O filho que se sente culpado não tem uma visão crítica sobre o a função do comportamento da mãe acaba admitindo que seu comportamento (ou, até pior que isso, que é ele) que gera sofrimento na mãe. Como o sofrimento da mãe é algo desagradável, logo, nada mais provável, do que ele reduzir a frequência da ação ou se voltar a fazer, sentir-se culpado por gerar sofrimento à mãe.
Na psicoterapia, o terapeuta pode ajudar a detectar o funcionamento das condições em que o sentimento de culpa se instala, como ela atinge não somente a pessoa que se sente culpada, mas também as demais pessoas envolvidas no contexto, de forma a avaliar a situação criticamente e ter comportamentos mais adequados e assertivos. Todo esse processo envolve emitir comportamentos que minimizem a possibilidade de punição (autopunição ou punição por terceiros) e aumentar a probabilidade de sucessos de seus atos. O terapeuta procura levar o paciente a reconhecer que emitir comportamentos “inadequados” é fruto do contexto e não de “culpa” ou “responsabilidade” pessoal. Se há algo responsável pelos comportamentos emitidos inadequadamente, certamente perpassam pelo contexto e pelas relações. Por isso, os esforços de mudança devem ser dirigidos para o contexto e para as relações, não especificamente sobre a pessoa de forma particularizada. Como costumamos sempre dizer: “para obtermos respostas diferentes, devemos ter comportamentos diferentes”.
Elídio Almeida
Psicólogo | CRP 03/6773
(71) 8842 7744 - Salvador – Bahia
elidioalmeida.wordpress.com




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