Dizem que na Bahia é carnaval o ano inteiro, mas nos dias do reinado de Momo a folia, as cores, as fantasias, as músicas e as pessoas, ganham um brilho ainda mais especial. Durante todo o ano são festas, ensaios, praias, alegrias e muita farra, mas as pessoas costumam dosar e associar tudo isso às obrigações cotidianas, seja através dos compromissos familiares, escola, trabalho ou faculdade.
Veja só que interessante: falamos que durante o ano a música, a praia as festas e farras precisam ser dosadas em função das obrigações do dia a dia. Isso nos faz lembrar que nosso comportamento é controlado por regras. Mas o que significa isso? Significa que nossa sociedade, nossa cultura, as instituições que pertencemos (família, trabalho, faculdade, religião), todas elas possuem regras que devemos seguir se quisermos ser bem sucedidos nesses ambientes. Até nós mesmos temos nossas autoregras (não posso, não gosto, não quero…), enfim, vivemos a maior parte do tempo tentando equilibrar todas essas possibilidades de comportamento e muitas vezes ficamos privados de algum deles (tenho que escolher entre ir à praia ou estudar para a prova, por exemplo).
Sentir-se privado de algo que lhe faz bem ou que você deseja, muitas vezes desencadeia uma série de comportamentos e sentimentos como: frustração, ansiedade, raiva, angustia… Imagine um ambiente onde todas as regras são flexibilizadas ou deixam de existir. Se o ambiente que você imaginou se aproxima das configurações do carnaval que conhecemos, já temos algumas pistas do porque muitas pessoas fazem uma “suspensão temporária do real” durante o carnaval.

Ano passado assisti o prefeito e o governador entregando as chaves da cidade e do estado ao Rei Momo e fiquei pensando sobre a representação desse ritual. Com esse gesto, inconscientemente, as pessoas podem pensar que “tá tudo liberado, quem tá no comando agora é o rei da folia” e com isso se apegam e se entregam completamente ao espírito carnavalesco, esquecendo que todas as formas de controle ainda estão presente nas mais variadas situações. Há que se pensar também em dois outros elementos presentes no carnaval: a fantasia e a utilização de bebidas e outras drogas, também contribuem pra a “suspensão temporária do real”.

Hoje, embora a fantasia tenha perdido espaço para outros adereços da folia, ainda encontramos muitos foliões que preservam a tradição da fantasia no carnaval, além dos blocos de travestidos e iniciativas que estimulam o resgate das tradições momescas. Nesse sentido, a fantasia pode cumprir a função de trazer à tona desejos que foram privados em outros momentos. Como a fantasia se opõe à realidade, é compreensível que muitos se desprendam do mundo real controlado por determinadas regas e viva intensamente aquele momento e aquela fantasia. Outro aspecto que devemos evidenciar é a utilização de bebidas alcoólicas e outras drogas durante a folia. Essas substâncias, dentre outros efeitos, provocam uma redução da censura e um maior desprendimento dos controles pessoais e sociais, o que favorece um desligamento ainda maior “do mundo real”.
É interessante pensar que ainda contamos com ambientes como o carnaval pra extravasar ou experimentar determinados comportamentos e emoções. Contudo, é interessante também não perdermos de vista o nosso próprio controle para que, no calor da folia, não façamos algo que possamos nos arrepender ou até mesmo nos deixar com sentimento de culpa no futuro. O legal é sempre pensar nas consequências dos nossos comportamentos. Todos nós somos livres para nos comportar, mas todos os nossos comportamentos são passíveis de controle ou de punição social. Como diz Skinner: “sou livre à medida que controlo as condições que me controlam”. Por isso, mesmo que seja por uma fração de segundos, reflita sobre seus comportamentos e as consequências que eles terão na sua vida e na vida das outras pessoas. Se a resposta for “vá em frente”, aproveite o momento e assuma as consequências do seu comportamento.
Bom carnaval a todos.
Elídio Almeida
Psicólogo | CRP 03/6773
(71) 8842 7744 - Salvador – Bahia
elidioalmeida.wordpress.com




Sensacional…BELO TEXTO… Muito bom mesmo…COMO É BOM A GENTE LER ESSES TEXTOS, ESSAS OPINIÕES…APRENDE MUITO COM ISSO..OBRIGADO DR…ABRAÇOS NILL
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