Inicialmente quero aqui me solidarizar às famílias das vítimas e a todos que se sensibilizaram com esse episódio extremamente triste em nosso país.
Passados alguns dias do massacre que chocou o país, onde o jovem Wellington Oliveira, de 24 anos (foto), matou 12 adolescentes e em seguida se suicidou, no bairro do Realengo-RJ, toda a imprensa brasileira, com repercussão internacional dada a gravidade do caso, ainda discute a tragédia. Na mesma direção, políticos e autoridades aproveitam o episódio para criar palco falando de segurança pública, desarmamento e outras questões que até podem ser paliativas, mas não resolve efetivamente a questão. Em acontecimentos como esse é muito comum em nossa cultura discutirmos muito o ocorrido, procedermos a investigação profunda do passado do agressor e das vítimas, além de criarmos propostas para que o evento não se repita. Todavia, embora motivadas pelo mesmo episódio, em muitos momentos todas essas informações são tratadas de forma separada e isso pode não contribuir efetivamente para que outras tragédias sejam evitadas no futuro. Por isso devemos sempre estar atentos ao ocorrido no passado, identificar quais foram consequências desse passado e como tudo isso (junto) pode trazer ensinamentos e dicas para o futuro.
Até então, de tudo que já foi veiculado na impressa sobre a tragédia do Realengo, temos condições para tentar compreender os antecedentes que desencadearam o massacre:
- Ao que tudo indica Wellington era alvo de bullying (fonte) e isso, somado a todo o contexto pode ter culminado na tragédia.
- Wellington estudou na escola em que houve o massacre, que ficava a apenas 300 metros de sua casa, o que sugere que ele pode ter escolhido o local como alvo apenas por ser conhecida e acessível (morava perto, ex-aluno)1.
- A suposta carta deixada por ele revela um discurso desconexo, próprio de comportamentos psicóticos. Não fica claro, contudo, desde quando eles estavam instalados no repertório de Wellington: se na infância ou oriundos a partir de algum episódio recente. E mesmo os depoimentos de quem o conhecia não são suficientes para fazer uma afirmação mais contundente2.
- Wellington morava só, não tinha amigos, passava a maior parte do tempo na internet, sentia falta da mãe morta e tinha apenas uma irmã para conversar, raramente. A solidão crônica pode induzir quadros de psicose, ou agravá-los. Aliás, pediu para ser enterrado junto com a mãe, o que sugere saudades e desejo de proteção3.
- Ele disse, antes do massacre, para vizinhos que ficaria famoso. Isso revela um desejo de ser reconhecido, o que sugere que ele quis imitar outros atiradores suicidas (veja a similaridade que tem com o caso do Realengo com Columbine, por exemplo!). Na falta de amigos e modelos de bons comportamentos, ele escolheu ter essas “celebridades” para imitar4.
- O crime foi premeditado e avisado (para vizinhos que não entenderam), bem como executado com calma e frieza. Ele inclusive treinou o uso de armas de fogos para garantir matar o maior número possível de crianças. O fato de ter sido tão frio e calculado exclui a possibilidade de um “impulso de última hora” estar na raiz do caso5.
- Segundo a irmã, ele era obcecado por terrorismo, homens-bomba e outros fanáticos religiosos suicidas. Wellington revela, em sua carta de suicídio, uma certa crença religiosa de que é puro. (Ele morreu virgem)6.
- Já foi teorizado que ele não queria punir as crianças, mas salvá-las do pecado. Isso explicaria porque ele pediu desculpas na carta de suicídio por matá-las (com tiros nas testas, para terem mortes rápidas). Se as estivesse punindo por algo, não pediria desculpas. Talvez Wellington acreditasse que as estivesse “salvando”7.
- O fato dele ter matado na maioria meninas, segundo alguns especialistas consultados, também parece sugerir um desejo de “salvar a pureza”8.
- Wellington matou apenas crianças. Poupou professores e outros adultos. Ele pareceu matar apenas pessoas com quem se identificava (jovens que estudaram na mesma escola que ele) e em seguida se matar, aumentando a identificação com elas. Como entender isso? Ao matar pessoas com que ele se identifica talvez estivesse buscando algo sobre si mesmo. Talvez quisesse, em seu delírio homicida, poupar aquelas crianças da vida amarga que teve9.

Observe o quanto podemos extrair do histórico de Wellington que nos permite não somente tentar entender o acontecido, mas principalmente agir para que outros não venham a se repetir.
Não basta dar publicidade ao caso, tão pouco criar leis que proíbam vendas de armas de fogo, implantar UPPs ou rotular as pessoas como loucas, neuróticas, psicóticas, perversas, criminosas ou assassinas. Precisamos pensar que pessoas como Wellington são produtos/vítimas de um contexto, de uma sociedade coercitiva que julga, humilha, onde as pessoas pouco se importam umas como as outras, uma sociedade que exclui; e com tantos outros controles coercitivos criam pessoas capazes de tamanha barbárie.

Teóricos como Skinner, Sidman e tantos outros já denunciaram as consequências de negligenciar os efeitos da coerção que tanto impera hoje no mundo. Enquanto estes alertas não forem valorizados em nossa sociedade, nossos políticos pensarem apenas em fazer palco em cima de catástrofes como essa, as autoridades e todos nós não agirmos diretamente na raiz do problema, vez por outra catástrofes como esta irão acontecer.

Quase caí pra trás quando vi um profissional analisar a carta de Wellington e afirmar em rede nacional que o assassino tinha traços psicóticos e que por isso fez o que fez. A repórter terminou a matéria dizendo: “Como vimos aí, o assassino era psicótico”. E isso soou como se Wellington fosse exclusivamente culpado pelo ocorrido, toda a sociedade/contexto fossem isentos na questão e o fato de saber que ele era psicótico fosse suficiente para a compreensão do ocorrido. Não. Veja que dessa forma, se outra tragédia voltar a acontecer, muito provavelmente as pessoas vão se apegar a essa referência para tentar justificar o ato: “deve ser mais um psicótico”, quando na verdade deveriam se preocupar em saber como esse “psicótico” foi construído e o que o levou a agir como agiu. Sabendo esses antecedentes podemos agir de forma mais eficaz para evitar outras ocorrências tratando o mal pela raíz.

Se Wellington é neurótico, psicótico ou perverso, isso é o que menos importa neste momento. O que precisamos ficar entender é como esse neurótico, psicótico ou perverso foi construído e que lições podemos tirar disso para que outros não venham a surgir também. Todos nós temos que construir contextos que possibilitem o surgimento de comportamentos incompatíveis com o que aconteceu. O ocorrido no bairro do Realengo foi um dos produtos da deficiência da sociedade em conferir aos cidadãos qualidade de vida biopsicosocial (uso esse rótulo como um atalho para me referir a todos os tipos de influência que determinam o comportamento humano).
Que fique aqui bem claro que não estou em defesa do assassino, porém culpabilizá-lo exclusivamente pelo que aconteceu (como tem feito autoridades, políticos e alguns estudiosos) chamando Wellington de “animal” e “monstro” parece ser muito cômodo, quando o que deveria ser questionado é como tal “animal” e “monstro” foi constituído e quem efetivamente são os responsáveis por esta criação e as consequências que ela traz à sociedade.
Que a tragédia do Realengo na semana passada sirva de alerta para criarmos propostas, estratégias e ações para que outras não se repitam. E que todas as informações sejam relacionadas e tratadas em conjunto para que o ocorrido não volte a se repetir. E para isso não ficar apenas na fantasia ou na teoria, cada um de nós precisamos agir em benefício de todos. E uma das minhas preocupações neste momento é o bem estar das testemunhas dessa tragédia e de tantos outros que vivenciaram situações de traumas. Já que temos informações sobre os produtos nefastos da coerção, cabe a nós a divulgação das mesmas da forma mais popular possível, com nossos amigos, parentes, colegas de trabalho…
Em breve um post especial sobre estresse pós traumático.
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9
do Blog Olhar Comportamental, do psicólogo Alessandro Vieira
Elídio Almeida
Psicólogo | CRP 03/6773
(71) 8842-7744 (71) 9208-8587
Salvador – Bahia
elidioalmeida.wordpress.com





Claro que este monstro agiu friamente, premeditadamente, nasceu com a índole do mal, com instinto de infringir dor e sentia prazer ao ver o desespero e a aflição das pessoas.
Digo mais, se ele não tivesse sido baleado pelo policial na perna, o que impediu que ele continuasse sua façanha criminosa ele teria subido ao terceiro andar da escola e teria matado mais crianças.
E um detalhe insofismável, se este bandido não tivesse percebido que lá fora, na rua, a policia já tinha cercado as proximidades da Escola e o portão estava bloqueado com a presença de dezenas de policiais e que o prédio esta cercado até mesmo por moradores do local e que ele seria linchado e esquartejado ou então acabaria sendo fuzilado num tiroteio com os representantes da lei, enfim, se este monstro maldito, pudesse assassinar suas inocentes e indefesasw vítimas e fugir antes da chegada dos policiais ele não teria cometido o suicídio.
Este monstro desde criança já tinha o dom e a vocação para matar e destruir. Tudo isso, vinha amadurecendo ao longo da sua vida, nada, foi feito num ato de revolta ou acesso de loucura, pois este canalha morava no bairro: Sepetiba há dois anos, comprou as armas, com carregadores de fácil manuseio no carregamento das armas e foi no distante bairro: Realengo, cometer seu exercício de maldades, pois ele tinha no seu comportamento a ânsia de demostrar seu poder sobre a vida e a morte.
existe também a informação de que este “verme” tinha a intenção de explodir a imagem do Cristo Redentor, ponto turístico da Cidade do Rio de Janeiro.
Se não coibirmos de uma forma dura e realista esta façanha monstruosa, este safado será o precursor e estimulador deta nova moda de destruir famílias, aqui no Brasil.
Duvido que ele rasgasse um nota de $100,00 (cem reais), ou que ele comesse cocô (fezes), ele não era maluco mais sim um frio e covarde criminoso.
Olá Ivan!
Obrigado pelo comentário. Penso que todas as opiniões enriquecem o debate, mas fico especialmente preocupado com algumas informações que você traz. Lógico que Wellington agiu friamente, afinal, ao que tudo indica ele vinha planejando essa chacina há tempos, mas é muito arriscado afirmar que “ele nasceu com a índole do mal”. A maldade, assim como tantos outros comportamentos dessa categoria, não é herdada biológica ou geneticamente, nos tornamos assim em função do contexto a que fomos expostos, das experiências que tivemos das estimulações, condições para tal e punição que tivemos ao longo da vida, por exemplo.
Uma coisa bacana que você fala no seu comentário é que se não coibirmos de uma forma exemplar este episódio poderá ser precursor e estimulador de uma nova moda de destruir famílias, aqui no Brasil. Nesse ponto você tem total razão. Veja o quanto o massacre do Realengo é parecido com outros dessa categoria que já ocorreu no mundo. Será que Wellington não se inspirou em algum deles para introduzir essa tragédia sem precedentes aqui no Brasil? Será que Wellington não se identificou com as causas, pensamento e ideologias que os demais assassinos dos outros países? Será que Wellington não teve também as mesmas condições e elementos para cometer tamanha barbárie? Lembre-se que muitos dos nossos comportamentos são aprendidos através dos exemplos que tivemos ao longo da nossa vida (pais, professores, amigos, ídolos…). Já pensou na possibilidade de que o Wellington tenha tido os assassinos de Columbine como referências? E se o próprio Wellington hoje for ídolo para tanto outros que viveram ou vivem as mesmas situações que ele, será que eles podem repetir o mesmo massacre?
Sabe Ivan, você tem razão quando convoca pra nós a responsabilidade por mudar esse contexto de forma que outras tragédias como essa não volte a acontecer. Porém penso que precisamos agir em prol dessa mudança de forma eficaz e assertivas, para não incidir no mesmo erro da agressividade e da violência.
Grande abraço, mais uma vez obrigado pelas palavras.
Olá Elídio, obrigado, por acolher meu comentário dentro do seu elogiável blog e em especial como comentário no seu brilhante artigo.
Percebo e estou convicto de que estou me comunicando com um douto psicólogo, que deve ser competente na sua àrea de trabalho, proporcionando excelentes resultados a todos que te procuram. Acredite, eu confiaria em ser seu paciente.
Quero, respeitosamente, afirmar que não estou aqui para contestar suas teses ( eu não seria tão audacioso nem ousado). Reconheço que sou leigo e não tenho a sua vasta visão, amparada em ensinamentos acadêmicos e que vem sendo evoluidos graças à sua experiência profissional.
Contudo, me permito fazer um questionamento, para que eu possa entender o seguinte: Você rejeita meu posicionamento quando digo que o assassino que vitimou inocentes crianças em Realengo, no Rio de Janeiro, não praticou a sua façanha criminosa, por motivo de ter nascido com a índole do mal e aí, você, desqualifica e derruba este meu entendimento, sustentando para tal que: “A maldade é fruto de exemplos que tivemos ao longo das nossas vidas, os quais fomos expostos, das experiência que tivemos e das estimulações”.
O que você me diz das seguintes situações? Duas mães e dois filhos, ambos com 6 anos de idade, como se vê, são crianças que ainda não tiveram tempo suficinte de vida para se comportarem ,diferentemente, motivadas pelos fatos de que uma viveu num meio sadio e a outra num convívio negativo e constituido de exemplos condenáveis. Todas estas minhas considerações preliminares, são para te apresentar os seguintes casos: Uma mulher vai caminhando pela rua com seu filhinho e de repente o garoto vê um gatinho abandonado, jogado na calçada, sentindo muita fome, por isso, miava alto. Neste momento o garotinho pede pra sua mãe que ela deixe que ele leve o bichinho desamparado para casa. A mulher diz que isto não é possível, enfim, a mãe não quer atender o pedido do filho, mas depois de tanta insistência do menino a mãe acaba consentindo levar o gatinho para casa, já que o filho se compromete a tratar do bichinho.
Agora, temos uma outra mulher com seu filho com a mesma idade do outro (6 anos), aqui, o quadro tem outra exposição. Senão vejamos: A mãe é uma pessoa religiosa, que adora fazer caridade, sempre qua alguém bate à sua porta pedindo um prato de comida ou um copo d’agua, ela atende e sacia a fome e a sede dos pedintes e o seu filho sempre assistiu os bons exemplos da sua mãe. E na casa deles tem um cachorrinho, que eles pegaram para criar, até que um dia, inesperadamente, o garoto resolve pegar uma toalha de banho e decide matar o indefeso animalzinho, por enforcamento. E depois deste ato praticado, o menino demonstra alegria ao confessar para mãe que tinha eliminado o bichinho.
E agora, meu brilhante e respeitável Dr. Elídio? Não nos parece que estamos diante de dois meninos com índoles diferentes: uma boa e a outra má?
Abraços. Ivan Brafman
Olá Ivan, bom receber notícias suas!
Reitero que é sempre uma satisfação receber comentários aqui no blog e mais gratificante ainda é poder aprofundar as discussões oriundas das minhas módicas palavras. Fico contente em saber que lhe inspiro confiança, ao ponto de demonstrar que aceitaria ser meu paciente. Se de fato isso ocorresse, creio que teríamos sessões altamente produtivas e uma das primeiras coisas que iriamos combinar é que você poderia me chamar de “você”. Ainda não tenho doutorado e não me sinto confortável em ouvir ou ler “Dr. Elídio”. Em alguns momentos soa com conotação de ironia e como aposto não ser seu caso, vou me sentir mais a vontade se continuar me chamando de Elídio, nas próximas mensagens.
Achei interessante você dizer que não está aqui para contestar teses, que não seria audacioso, que é leigo, que não tem vasta visão sobre o assunto… Tudo isso é bobagem! Espero sinceramente que compreenda essa minha audácia e desde já vou tentar explicar o que quis dizer. Creio que todo conhecimento é, de certa forma, construído a partir de uma contestação: Por que chove? Por que faz frio? A terra é quadrada? De onde as crianças veem? Por que as pessoas envelhecem? Por que morrem? Por que são algumas pessoas são tão más?… Não vejo problema algum nas dúvidas, nos desafios, nas objeções. Ser audacioso pode ser algo muito saudável à construção de nossa autonomia, autoconfiança e reconhecimentos dos limites enquanto ser humano. E essa história de leigo, vasta visão acadêmica; não deve ser um limitador para se buscar compreensão desse mundo tão complexo em que vivemos. A academia pode ser bastante útil para problematizar, sintetizar, padronizar e difundir conhecimento científico a cerca dos fenômenos que ocorrem em todos os lugares desse universo; mas conhecimento (no sentido mais amplo da palavra) se produz em qualquer lugar. Na minha profissão, por exemplo, os principais autores desenvolveram suas teorias a partir de observação e experimentação do cotidiano: Freud, Lacan, Moreno, Skinner… e esse universo está acessível a mim, a você e a qualquer outra pessoa que se engaje nesse comportamento. Então, vamos combinar que falaremos desse ou de outros temas, partir do nosso conhecimento que, mesmo sendo distinto, tenho certeza que poderemos fazer trocas epistemológicas bastante interessantes, ok?
Dei uma lida na resposta anterior que te enviei e também entendi que não concordei contigo quanto a informação do assassino ter “nascido com a índole do mal”. Todavia, não vi onde “desqualifiquei” e “derrubei” seu entendimento sobre a questão. Acredito que, apenas, expus uma opinião que obviamente tem base em minhá formação e outras possíveis causas que acredito serem constitutivas de tamanha perversão; ao tempo que intentei uma reflexão para estas.
Você já deve ter reparado que sou prolixo. Veja só, Três parágrafos só para as minhas considerações preliminares! Mas vamos à análise da situação que você propõe. Vou tomar a liberdade de segmentar sua fala para eu poder ordenar melhor meu pensamento.
Duas mães e dois filhos, ambos com 6 anos de idade…
Só dessas onze palavras, já poderíamos entender bastante coisa. Para a psicologia, em especial para a análise do comportamento, cada pessoa é única e constituída a partir de três perspectivas fundamentais que chamamos de tríplice contingência: a filogênese, a ontogênese e a cultura. A primeira diz respeito a história evolutiva da humanidade, a segunda da história de vida de cada sujeito e a terceira diz respeito a cultura, costumes, regras, crenças… dos contextos a que esta pessoa foi exposta. Somente a partir disso já podemos entender que são 04 pessoas distintas e duas famílias com hábitos, como você estaca mais abaixo, bem diferenciados. Nada mais natural que tenha repertórios comportamentais que se distancie um do outro.
…como se vê, são crianças que ainda não tiveram tempo suficiente de vida para se comportarem, diferentemente…
Você acha mesmo que aos seis anos de idade uma criança já não se desenvolveu o suficiente para se comportar de forma diferenciada das outras em sua idade? E os processos psicológicos básicos como a linguagem, a memória, a percepção e outros constructos do desenvolvimento humanos começam a partir de que idade? Não seriam desenvolvimentos biológicos e aprendizagens sociais e psicológicas que se somam a cada momento da vida?
…motivadas pelos fatos de que uma viveu num meio sadio e a outra num convívio negativo e constituído de exemplos condenáveis.
Muito legal isso de você sinalizar os contextos em que cada uma dessas crianças vive, sobretudo destacando que em uma família o padrão comportamental é tido como os adequados em nossa sociedade, enquanto na outra ocorre o inverso. Lógico que o contexto familiar é altamente importante para a constituição da “personalidade” de uma criança. E o esperado seja exatamente isso: uma família que dá bons exemplos forma pessoas exemplares socialmente e numa família que não preza, tampouco prática hábitos socialmente saudáveis vai ensinar aos seus filhos esses comportamentos. Nós sabemos que existem casos que contraria ambas as “regras” e é esse exemplo que você traz. Antes de passar diretamente para eles vou destacar alguns pontos: Essas crianças viviam apenas em suas próprias casas? Que outros contextos elas frequentavam? Elas iam pra creche? Visitavam ou eram visitadas por outras famílias? Que tipo de brinquedos possuía? Assistiam televisão? Que assuntos eram comentados dentro dessa casa? Se ocorresse um assassinato no bairro o assunto seria comentado em ambas as casas? E isso também se aplica ao menino bonzinho. Nascemos com uma bagagem genética e isso não é um determinante exclusivo de nossa personalidade. Outras variáveis contribuem nessa formação e uma delas é a família, mas não é a única. Vamos adiante.
A mãe é uma pessoa religiosa, que adora fazer caridade, sempre que alguém bate à sua porta pedindo um prato de comida ou um copo d’agua, ela atende e sacia a fome e a sede dos pedintes e o seu filho sempre assistiu os bons exemplos da sua mãe. E na casa deles tem um cachorrinho, que eles pegaram para criar, até que um dia, inesperadamente, o garoto resolve pegar uma toalha de banho e decide matar o indefeso animalzinho, por enforcamento. E depois deste ato praticado, o menino demonstra alegria ao confessar para mãe que tinha eliminado o bichinho.
Aqui, mais uma vez vamos evidenciar que as pessoas são diferentes e os exemplos dos pais não são exclusivos na formação da personalidade dos filhos, ok? Apresar de estarmos em constante desenvolvimento e aprendizagem, aos 06 anos já possuímos algumas habilidades que nos faz ter dimensões das coisas, sobretudo do que é certo ou errado em nossa cultura. Se depois de ter matado o cachorro e ter demonstrado alegria pelo ato, perguntássemos ao garoto por que ele fez isso, será que ele responderia algo coerente com o ato e com suas expressões emocionais posteriores à ação? Imagine que esse garoto tenha assistido a este desenho animado no programa infantil da televisão: http://www.youtube.com/watch?v=YebB1oEsI-o e que depois de assistir ele resolveu brincar de cão e gato com seu cachorrinho ou até mesmo, a partir do exemplo que ele viu no desenho, se colocar no papel do gato e imaginar que cachorro seria seu inimigo no futuro e por isso resolveu torturar o cão e até mesmo mata-lo. Se essa hipótese fosse verdadeira, poderíamos dizer que o garoto “nasceu com a índole do mal” ou as contingências lhe ensinaram e deram condições de agir com essa maldade? E o que aconteceu depois? Será que a família procurou ouvir o garoto para tentar entender o que aconteceu ou os referenciais religiosos da família, por exemplo, foram usados pra dizer que o garoto estava possuído por uma entidade demoníaca ou que ele era um assassino? Imagine se alguém se dirige para esse garoto, sem analisar o contexto e os antecedentes e lhe diz: “você é um monstro, um assassino” e ele internaliza essas informações e passa a se sentir e agir como tal? Outro dia eu estava na escada rolante do shopping e percebi que uma senhora ficou demasiadamente nervosa quando observou o homem que vinha atrás dela. Ao descer da escada ela disse: “Ainda bem que ele passou”! Perguntei se estava tudo bem e ela disse que o homem que estava atrás dela era um psicopata. Perguntei por que ela achava que ele era um psicopata e ela respondeu: “vi pelo olhar dele, igualzinho ao psicopata do filme…”. Assim não dá, né? Não devemos rotular sem conhecer a história de vida da pessoa, por mais nova que ela seja, tampouco deixar de analisar os antecedentes e consequentes para chegar a diagnósticos tão estereotipados socialmente. Em relação ao garoto que matou seu cão, é possível sim que ele possa vir a se tornar uma pessoa má a partir desse ou de outros episódios que ocorreram em sua vida, mas não acredito que ele tenha nascido com “essa índole”.
[...] Não nos parece que estamos diante de dois meninos com índoles diferentes: uma boa e a outra má?
Sim, estamos diante de meninos diferentes, que tiveram história de vida diferentes. Talvez mais importante do que dizermos quem é o bom e quem é o mau, seja entendermos como essas “índoles” foram constituídas, para que possamos tentar repetir o bom exemplo no máximo de pessoas possíveis e, quem sabe, extinguir o mau exemplo.
Ah! Depois me diga se esse foi um exemplo real ou fictício, para de repente reunirmos mais dados e outras discussões.
Forte abraço!
Concordo com a matéria em alguns pontos.
Realmente, um assassino não surge do dia para a noite, diversas situações o tornam um.
O que mais me chamou a atenção nisso tudo, é que os fatos gritam:
“-A sociedade está falida, temos de muda-la”, e o que a grande maioria das pessoas faz, é fechar os olhos para não ver o que está tão claro, e apenas condenar, o que é muito mais fácil, e não exige nenhum esforça ou confronto consigo mesmo.
Mais uma vez o egoísmo humano me surpreende.
Olá Luan!
Obrigado pelo comentário. De fato um assassino não nasce da noite pro dia. Estive acompanhando as notícias acerca deste caso e me assustei como durante muito tempo o comportamento do Wellington denunciava que ele não estava bem e, ainda que algumas pessoas tenham percebido, nada foi feito. Em alguns momentos vi até depoimentos sobre compra de armas, conflitos religiosos, referências feitas por ele sobre atentados terroristas e nada foi feito naqueles momentos. Pode ser utópico, mas certamente viveríamos num mundo melhor, mais seguro, ético, feliz… se pudéssemos mudar nosso ambiente e que além de nossas particularidades pensássemos também nas outras pessoas.
Um abraço!
Caro amigo, concordo com você em parte, sofri bulling durante a infância e isso atrapalhou em muito a minha rotina escolar: não tinha vontade de ir à escola, repeti a quinta e sexta séries e mudei-me para um outro municipio baiano para concluir o ensino médio. Parentes e amigos diziam que eu tinha TDAH mas, ano passado, através de terapia e acompanhamento clínico-psiquiátrico, descobri que sou disléxico.Em novembro de 2007 apresentei os primeiro sintomas de síndrome de pânico, fui medicado, dei início à uma longa pesquisa sobre transtornos de ansiedade, mas negava-me a fazer terapia: acreditava que somente as medicações resolveriam meus grilos. Li e adorei o livro da jornalista e escritora Cátia Morães Eu tomo antidepressivos, graças a Deus. Hoje, uma grande amiga.
Esse rapaz que cometeu esta atrocidade já nasceu psicótico: basta prestar atenção em seus olhos no vídeo postado pelo fantástico durante uma cerimônia de casamento. O bulling hoje em dia, está presente em todos os lugares: as pessoas estressam-se no transito, nos supermercados, nas filas de banco…
Ano passado a ANVISA caiu matando na quantidade de receitas de ansiolíticos ministradas irresponsavelmente: tarja preta não é pílula da felicidade como todos imaginam. Felicidade é encarar os problemas com bom humor e sorrir da própria desgraça, rs.
Parabéns pelo blog.
Olá Hage!
Obrigado pelo comentário. Se depoimento sobre bullying, TDAH, dislexia, pânico, ansiedade são bastante ilustrativos. Fico feliz que tenha superado essas questões.
Olha só, também concordo em partes com o que você escreve e fico particularmente preocupado com a afirmação: “já nasceu psicótico, basta prestar atenção em seus olhos no vídeo postado pelo fantástico durante uma cerimônia de casamento”. Não assisti ao Fantástico (faz anos que não assisto), mas procurei o vídeo na internet para opinar com mais segurança, pena que não encontrei (se você encontrar, ficarei feliz em assistir). Ninguém nasce psicótico, tampouco existem afirmações cientificas para que essa seja uma doença geneticamente ou biologicamente determinada. Se o fantástico apresenta uma matéria com informações que afirme ou induza seus telespectadores a pensar desta forma, penso que comete um crime, pois rotular e criminalizar uma pessoa a partir dos estereótipos e ou características físicas pode ser muito cômodo, mas pouco ético e nada responsável.
Você também levanta outro ponto sobre a comercialização em larga escala das pílulas da felicidade. Em muitos casos, se não na maioria, elas apenas cumprem o papel de tirar a pessoa de sua realidade e não resolve de fato seus problemas, daí cada vez que o efeito do remédio passa, todos os sintomas anteriores retornam, levando cada vez mais à utilização do medicamento. Lógico que em alguns casos ele se faz necessário, mas não traz por si só a felicidade para ninguém!
Forte abraço, muito bom ter opiniões como as suas!
Oi, Elídio.
Antes de tudo, quero esclarecer que só quis ser coerente ao chamá-lo de Dr. Elídio, já que em parágrafos anteriores fiz enaltecer suas posturas ao analisar fatos e situações diversas e complexas, com desenvolturas brilhantes sim. Pelo menos eu senti, assim. E fui sincero em tudo o que disse.
Este detalhe de que você não tem doutorado em psicologia, é alheio ao meu conhecimento, para mim, na minha ignorância o fato de você ter CRP e ter o título de psicólogo, cabia, sem controvérsias, receber o tratamento de doutor. Não esqueça, por favor, que estou sendo apresentado à sua biografia agora. Nunca me dirigiria à você usando de conotação irônica, até porque, acabo de agradecer pelo seu acolhimento em aceitar meu comentário, e isto foi feito de uma forma tão gentil, cortês e receptiva, que se eu fosse irônico, estaria sendo extremamente incoerente. ( Ironia é uma coisa que não uso em momento algum, pois quando algo me desagrada – apesar do meu cuidado- em não ser arrogante, pois tenho como uma das características da minha personalidade: SER HUMILDE! Sei demonstrar de uma forma transparente e até contundente, se preciso for, minha insatisfação, de uma forma transparente e às claras, sem usar o maléfico e doentio instrumento do duplo sentido. Exponho meu contraditório, verbalizando, isto quando algo vem ao meu encontro abastecido e identificado como inamistoso na forma mais deturpada de ser.
No nosso caso, quando você ressalta alguns pontos considerados positivos no meu comentário e estes são explicitados na sua avaliação e em outros momentos você se permite ao legítimo direito de discordar de outros meus posicionamentos. Isto é perfeitamento natural e normal, já que estamos dialogando dentro de um debate amistoso, onde a conduta liberal e democrática, só serve para enriquecer e edificar informações e experiências. Peço licença, no meu caso, para te dizer que é um privilégio muito grande está interagindo contigo e um aprendizado maravilhoso, sim.
Moro no Rio de Janeiro e tenho alguns amigos aí, na Bahia. Aliás, espero em breve visitar estes meus amigos aí, no seu Estado.
O Exemplo, apresentado por mim é fictício, porém, acredito que ele não esteja muito distante do que possa ser real.
Só quero fazer uma ressalva, quando eu disse:como se vê, são crianças que ainda não tiveram tempo suficiente de vida para se comportarem ,diferentemente, motivadas pelos fatos de que uma viveu num meio sadio e a outra num convívio negativo e constituido de exemplos condenáveis. Neste momento, quis afirmar que os quadros circunstanciais condenáveis e negativos, NÃO compunham o cotidiano das vidas dos meninos, no caso, para gerarem e produzirem influências abomináveis no comportamento muito diferenciado dos mesmos. Até pelo fato de que não expus que as forças do meio tivessem interferências nefastas, principalmente, no caso do menino que matou o cachorrinho, muito pelo contrário, ele só presenciava atos de fraternidade e amor, praticados pela sua mãe.
Devo dizer, que estou muito satisfeito com as suas minuciosas explanações sobre todas as considerações pertinentes ao caso, na sua totalidade e abrangências.
Pude entender tudo, na sua plenitude. Só me resta agradecer por sua atenção.
Abraços. Ivan
Olá Ivan!
Fiquei super feliz com seu último comentário, principalmente por ele esclarecer ainda mais nosso diálogo, acima de tudo, por ele reforçar a impressão altamente positiva que tenho a seu respeito. Faço de suas palavras as minhas. Para mim também é um privilégio muito grande está interagindo contigo e tem sido sim, um aprendizado maravilhoso!
Imaginei, de fato, que o exemplo fosse fictício. E você tem razão, ele não é nada distante de muitas realidades que conhecemos. Ah! Obrigado pela ressalva. Com ela, o caso tornou-se mais compreensível para mim.
Bom saber que você possui vínculos aqui na Bahia. Moro em Salvador e estando por aqui, peço que faça contato para combinarmos um café e quem sabe conversarmos um pouco mais, desta vez no mundo dos carbonos! Eu quem agradeço a contribuição. Penso que outros leitores do blog poderão se beneficiar de alguma forma pelo que dissemos e publicamos.
Estarei sempre à disposição para conversarmos mais sobre estes ou outros temas. Forte abraço! Aguardo novos contatos e, quem sabe, nosso café!
Elídio, com certeza, estarei deixando meus comentários em outros artigos. Os temas são muito pertinentes, oportunos e atraentes. Terei muita alegria e prazer em participar com minhas modestas opiniões.
Sobre o convite para o café: está firmado! Vamos combinar sim, não vou esquecer. Isto só vai acontecer nas minhas férias.
Desejo que você continue tendo muito sucesso.
Forte abraço. Ivan
Aguardo a chegada de suas férias. Até lá será uma satisfação ter seus comentários!
Olá,
Eu me chamo Iracema Moura, sou estudante de psicologia e acabo de le um pouco sobre o que foi escrito por você.Percebo claramente sobre as suas preocupações, e acredito nisso também, não podemos agora aceitar que este rapaz seja julgado como monstro e sim se perguntar de que forma este monstro foi constituido, será que ele pretendia ser assim?
E a responsabilidade da escola fica aonde?
Será que não teve um profissional que fosse capaz de perceber que este aluno precisava de uma orientação?
E a saúde Pública será que oferecia atendimento pra esse cidadão?
Pois bem, devemos todos aproveitar essa triste tragedia pra refletir-mos sobre a forma que as nossas crianças e jovens vem sendo amparada no contexto emocional.
Politicos deveriam está se preocupando em investir em projetos voltado para saúde mental, ao invés de estarem querendo fazer dessa tragedia algo para se aparecer!
Atenciosamente,
Iracema Moura
Olá Iracema, obrigado pelo comentário. Sábias palavras, bom saber que não estamos sós!