
Ontem, depois que saí do consultório, fui ao supermercado. Na hora de registrar as compras, como sempre, peguei uma fila quilométrica. Daí, comecei a procurar algo para “ocupar a mente”, resolvi dar uma olhada nas funcionalidades de um dos celulares que uso e descobri uma função no mínimo inusitada. Como a proposta deste post é discutir as razões que levam as pessoas a mentir, vou deixar pra falar sobre a descoberta do celular mais a diante. Antes, vamos tentar entender o que é e como ocorre a mentira.
Se alguém perguntar o que é MENTIRA, certamente você vai responder algo como: “dar uma informação falsa a alguém”, ou “afirmar que uma coisa falsa é verdadeira”. Porém isso não responde e tampouco explica o que leva uma pessoa a mentir. Para compreender melhor esta questão, precisamos encontrar uma definição relacional, ou seja, que leve em consideração o contexto onde a mentira foi produzida e quais foram suas consequências.
Uma boa ferramenta que temos para fazer a relação entre o contexto e as consequências é analisando o comportamento verbal. Por comportamento verbal, entendemos todo comportamento (ação) de uma pessoa que produz efeitos noutra pessoa antes mesmo de produzir efeitos no contexto. Por exemplo, uma pessoa que está sentindo calor pode pedir a outra que ligue o aparelho de ar-condicionado, no lugar dela mesma ligar. Seu comportamento (verbal), ou seja, sua solicitação agiu sobre outra pessoa e esta pessoa modificou o meio em que ambas se encontravam.
Quando uma descrição ou afirmação como esta do ar-condicionado é formulada e emitida, o outro pode se utilizar dela para nortear seu comportamento. Observa-se, então, que descrições ou regras formuladas por uma pessoa afetam o comportamento do outro e nessa intenção de fazer com que a outra pessoa se comporte e provoque mudanças no contexto, pode ocorrer tanto a emissão de verdades quanto de mentiras.
Falar a verdade ou contar uma mentira, são comportamentos verbais aprendidos e mantidos pelas consequências que produzem. Ou seja, quando alguém é beneficiado por contar uma mentira, tal comportamento pode ser aprendido. Se mentir mais vezes trouxer “vantagens”, ele será mantido em alta frequência e selecionado para fazer parte do repertório comportamental da pessoa. Nesse sentido, precisamos considerar que o comportamento de mentir pode ser mantido, também, por afastar ou adiar consequências desagradáveis. Por exemplo, o estudante que falta a aula para não fazer uma prova que não estudou ou a criança que finge estar doente para não ir à escola.

Você saberia dizer quando e porque aprendeu a mentir? Normalmente aprendemos isso desde a infância. As crianças mentem com frequência para seus pais, pois eles costumam punir quando elas falam a verdade sobre algo que os pais consideram errado. Então, elas podem aprender a mentir para, por exemplo, ter a oportunidade de brincar com um coleguinha que não é bem quisto pela sua família, ou mentir sobre ter realizado a tarefa de casa para assistir ao seu desenho favorito.
Como foi afirmado anteriormente, pode-se mentir para ter acesso a alguma vantagem ou evitar um “mal maior”. Assim sendo, as pessoas têm maior probabilidade de mentir menos e dizer a verdade diante de contextos em que o que elas não se sintam julgadas, não são criticadas, nem punidas. Se um pai pune o filho quando ele relata que assistiu TV quando deveria estudar, é importante observar que ele puniu o comportamento do filho ter feito o que não devia, mas, puniu principalmente o comportamento de dizer a verdade. Você, por exemplo, após ter sido punido por dizer a verdade, você a diria em outra ocasião?
Com isso, podemos entender que as pessoas mentem porque aprenderam a evitar punições ou ter vantagens a partir das mentiras, certo? Certo. Mas o que mais pode contribuir para que as pessoas mintam? Se você disse (ou pensou) que, para uma pessoa mentir é preciso que ela tenha as ferramentas e as condições para que a mentira seja elaborada e emitida, você acertou novamente! E já que chegamos às condições para que a mentira ocorra, vou falar do descobri no meu celular.
Na fila do supermercado, ao acessar o menu principal…

… me deparo com uma lista ferramentas, onde no topo aparecia: “chamada falsa”!
Curioso (lógico) quis saber como funcionava e para que servia.

Dei OK e surgiram opções para configurar a “chamada falsa”:

1) Ligar/desligar – para ativar/desativar a ferramenta;
2) Hora – definir o intervalo para que a chamada “falsa” fosse realizada;
3) Remetente – para inserir o nome e número do telefone de alguém .

Ativei a ferramenta, programei um intervalo de 01 minuto (poderia ser entre 10 segundos e 30 minutos) e coloquei um nome e um número de telefone.

Confirmei a ação.
Pronto, agora era só esperar pra ver o que aconteceria.

30 segundo depois, o próprio celular toca, informando o nome e o número do celular que eu havia preenchido nos campos de configuração da “chamada falsa”.

Ri comigo mesmo, pois parecia até eu estava surtando. Juro que pensei “se eu atender, quem é que vai falar comigo? Tenso e curioso, atendi e felizmente não ouvi nada, mas verifiquei que no o visor mostrava como se de fato eu estivesse com uma ligação em curso. Inclusive ficou registrada nas chamadas recebidas com tempo de duração e tudo mais.
Não sei se o exemplo foi válido, mas com isso tentei ilustrar o quando o contexto em que vivemos e as ferramentas que ele nos oferece não só nos ensina a praticar comportamentos inadequados, como é o caso da mentira, como também esse mesmo contexto nos dá as condições e ferramentas para que tenhamos comportamentos ditos desviantes.

Além de mentiras ter pernas curtas, sabemos que todo comportamento produz pelo menos um efeito.
Confesso que gostaria muito de ouvir dos criadores de tal ferramenta ou da marca que a comercializa em seus aparelhos celulares, qual é de fato o propósito de uma de dar condições para se simular uma “chamada falsa”. Não pude deixar de imaginar o que um criminoso poderia ou uma pessoa de má fé poderia fazer com uma ferramenta dessas ou o quão útil ela seria pra justificar tantas e tantas mentiras nos mais variados contextos e situações.
Por tudo isso é que penso que nós, juntamente com nossa sociedade, sofremos as consequências de ações mal planejadas e comportamentos inadequados que foram aprendidos pelas consequências reforçadoras de contextos em que foram geradas, mas, também, por vivermos em ambientes que favorece que tudo isso ocorra e por vezes até com incentivos, sem que sejam pensadas as consequências danosas que elas podem trazer individual e coletivamente.
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Elídio Almeida
Psicólogo | CRP 03/6773
(71) 8842-7744 (71) 9208-8587
Salvador – Bahia
elidioalmeida.wordpress.com




Excelente texto. Parabéns.
Muito bom o que dissertou. O que me atraiu foi a sua observância em relação às “ferramentes e condições” que são necessárias para a criação de uma mentira.
Preciso de um celular assim. rss
Anunciar previamente a história do celular que você contou no fim do post seria um autoclítico interessante não pudéssemos mover a barra de rolagem. rss
Mas eu li tudo e gostei do que li. Ficou bem acessível para quem não é da área. Tão didático quanto se espera de um analista do comportamento.
Parabéns pelo blog, Elídio.
Abraços,
Fábio.
ei ,,me empreste este celular ai,quando o (monstrinho) tiver me enchendo atendo p telefone e saio correndo,gostei muito dessa materia,vou conversar mais com minhas filhas sobre este assunto,um abraço
Muito boa a matéria.
Mais uma vez registro meus sinceros PARABÉNS!
Olá Jucélia, obrigado!
Mais uma vezes, Elídio, tenho que parabenizá-lo, por sua habilidade na hora de apresentar seus oportunos e brilhantes temas para discussão.
O assunto em tela é muito interessante. Muitos de nós, somos agentes ativos e outros passivos dos efeitos do ato de mentir.
Entendo que tudo começa mesmo do hábito de se dizer aquilo que não é real e verdadeiro.E isso cria raízes dentro do íntimo de quem usa este recurso e não importa se existe um motivo grave ou não. A mentira será verbalizada de um forma muito espontânea: sempre!.
Acredito que o ato de mentir reflita o resultado de auto-estima (baíxíssima), insegurança, medo e personalidade inerte, diante da exposição do cotidiano. Assim como uma fuga.
Abraços. Ivan
Olá Ivan. Eu quem agradeço e fico feliz que tenha gostado. Excelente você destacar que como a mentira hoje é algo espontâneo e você está corretíssimo na caracterização de quem faz uso constante deste artifício.
Abraços, sempre enriquecedoras suas opiniões!
Excelente artigo! Surpreendente a observaçao de minucias do cotidiano!
Olá Drika, obrigado!
Ola Elidio Parabens , muito boa sua materia.
Quero dizer que tambem ja tive este questionamento porque alguem precisaria de uma ferramenta desta, mais fico tristem em dizer que ‘e um reflexo do comportamento humano, se fizeram alguem solicitou, inclusive os tecnicos precisaram deste artificio p/ comecar a pensar no projeto.
Infelizmente estamos cercados por pessoas que mentem ja vi pessoas que criaram uma teia tao grande de mentiras que chegou um momento, que ninguem sabia qual era a verdade.
Com relacao as criancas e punicao etc , fico me questionando como obter a verdade sem perder a direcao de passar valores, educar??
Ja li tambem que (sobre pequenas mentiras) o super sinsero (aquela serie da TV) se existisse seria uma pessoa renegada as relacoes, pois como a gente pode dizer que a pessoa nao esta bonita (por exemplo) sem magoa-la ??
Abrco Roberto de Mendes
Olá Roberto Mendes!
Obrigado pelo comentário.
Você tem razão em relação a preocupação com o processo educativo e em como falar sempre a verdade pode trazer consequências desagradáveis às relações. Podemos pensar em pelo menos duas questões relacionadas a estas dificuldades: a primeira diz respeito a como não sabemos falar a verdade sem ser agressivo; segundo, da dificuldade que temos em compreender que beleza, por exemplo, é algo extremamente relativo e por isso a opiniões poderão ser sempre distintas; a demais, parece que estamos sempre evitando causar algum tipo de frustração às pessoas e por isso não experimentamos formas mais assertivas de comunicar nossas opiniões.
Forte abraço e sua visita e seus comentários serão sempre bem vindos!
Parabéns pela clareza da explicação
Olá Ana Maria, Obrigado!
Muito bom e coerente! Pretendo usar o artigo para me desculpar e justificar com um amigo, para quem menti, “para evitar um ‘mal maior’ ” (mas, fui descoberta e achei que seria melhor eu ter dito a verdade). Já usei a “chamada falsa”, para encerrar um encontro com uma pessoa chata, sem magoá-la. Gostaria de parabenizá-lo, mais uma vez, pelo escrito!
Obrigado Fabíola. Fico feliz pela atitude. Sucesso!
Adorei a matéria!!! Exatamente o que eu estava procurando…vou compartilhar na minha página do Facebook, ok?!!!
Parabéns!!!
Olá Ana Carolina!
Obrigado. Fique a vontade!
muito boa a explicação,agora sei pq meu namorado mente tanto,principalmente a um assunto expecífico com medo da punição.